quinta-feira, 30 de maio de 2013

MEMÓRIAS DE UM ORELHÃO - “Voltas que o discador dá”

        Na noite passada quase fui depredado. Alguns jovens se aproximaram e combinaram entre si, qual o melhor modo de me “detonar” (segundo as suas palavras). No início achei que o “detonar” seria um modo de me recompensar pelos meus serviços prestados. Imaginei-me sentindo uma gostosa escovada com um perfumado sabão, retirando de minha carcaça as sujeiras que o vento me traz ou as dos pássaros que possuem uma invejada “mira” e tão poderosa que conseguem me acertar em pleno vôo (coitadinhos, acho que eles não têm uma casinha com banheiro).
Mas como sou um orelhão “orelhudo”, estava enganado, pois o “detonar” significava: destruir. A minha sorte foi que quando eles se preparavam para iniciar o “servicinho”, apareceram algumas pessoas mais velhas, que os repreenderam, desencorajando-os de dar continuidade àquela ação.
Sinceramente não sei o “porquê” destas agressões a nós orelhões, se temos como objetivo servir os humanos. Outro dia fiquei sabendo, durante uma conversa de alguns técnicos que me davam uma manutenção, de como eles eram acionados para tentar salvar outros orelhões vítimas das agressões de vândalos irresponsáveis. Alguns, segundo estes técnicos, estavam nas últimas e outros, infelizmente, eram desativados. Não posso nem ouvir a palavra “desativar”, pois ela é para um orelhão o fim de sua vida e consequentemente por não ter podido executar a sua missão, não merece ir para o “paraíso dos orelhões”.
Mas me aconteceram fatos nesta vida que são como verdadeiros remédios que servem para “curar” o ser humano, mostrando a ele que para ser feliz precisa respeitar tudo e todos sem distinção de raça, credo ou cor. Mas se eles não se respeitam nem entre si, fico imaginando o que deve acontecer em relação aos outros seres vivos e a nós “coisas” e “máquinas”.
Há alguns meses também fui depredado, mas não sinto dor como os seres humanos e sim outra sensação ainda mais terrível que é o desrespeito e a falta de consideração. O fato é que me encontrava inoperante e sofria por não poder ser útil às pessoas que se aproximavam de mim. Quantos pedidos de socorro eu não pude transmitir e quantas mensagens de amor não pude completar, mas umas destas tentativas não realizadas eu gravei em meus “circuitos”.
A madrugada já ia alta, quando se aproximou de mim, um jovem pálido e ofegante. Quando este tentou pegar o meu aparelho os últimos fios que o ligavam a mim se romperam. O jovem deixou-o cair e levando as mãos ao rosto começou a chorar e entre soluços exclamava:

- “POR QUE FUI PARTICIPAR DAQUELA BRINCADEIRA DE QUEBRAR TELEFONES PÚBLICOS... MEU PAI SOFREU UM INFARTO E ACHO QUE NÃO VAI DAR TEMPO DE CHEGAR ATÉ UM OUTRO ORELHÃO, E PEDIR SOCORRO...
POR QUE FUI FAZER AQUILO?”

Penso comigo, que existem caminhos mais inteligentes e racionais para que o ser humano encontre e conquiste a felicidade. Enquanto ele achar que pode tirar vantagem de tudo e de todos certamente ele será cada vez mais infeliz, pois muitas vezes este “caminho” não tem volta.
Assim como o meu discador após ser impulsionado sempre volta a sua posição inicial, os atos dos homens sempre têm um efeito igual, bom ou mal, dependendo da causa inicial.

·                  Por: Marcos Ângelo Alves

·                  Revisão ortográfica: Prof.ª  Claudete Amaral de Melo

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