Lembro-me como se fosse hoje da minha primeira experiência como “orelhão
de rua”.
- DE RUA? (você, leitor, pode ter perguntado).
- Sim, de rua, pois existem algumas classes de nós orelhões que tiveram
a sorte de serem instalados em lugares não tão “sofríveis”, como por exemplo:
aeroportos, hotéis, rodoviárias etc. Mas não estou reclamando, pois fui também
útil e este é nosso principal objetivo, para que um dia mereçamos um lugar no
“PARAÍSO DOS ORELHÕES”, um lugar maravilhoso onde desfrutamos de tudo aquilo que
um feliz aparelho telefônico merece.
Mas como dizia, a primeira ligação foi para mim interessante e
proveitosa. Naquele dia, fazia uma temperatura agradável e o céu parecia estar
mais azul. Observava as paisagens quando senti uma pequena mão com muita dificuldade
tocar o meu aparelho, e com a mesma dificuldade (comum nos seres humanos na
fase “filhote”) conseguir discar o número desejado. Após alguns segundos, no
outro lado um outro aparelho é atendido.
- Mamãe? É você?
- Lucinha? O que aconteceu, filha?
- É o Zequinha, mamãe. Ele não está bem e chora muito chamando pela
senhora!
- Meu Deus! Será que a febre voltou? E eu não tenho como sair daqui do
meu serviço e ir até aí, querida!
- Mas, mamãe! Eu não sei o que fazer, só tenho seis aninhos!
Gostaria de que você, caro leitor, soubesse como
fiquei horrorizado com aquela situação: “UMA CRIANÇA DESAMPARADA DE UM LADO E
UMA MÃE DESESPERADA DO OUTRO” e eu sem possibilidade nenhuma de ajudar.
No instante em que o diálogo se desenrolava notei que uma mulher se
colocava atrás da criança parecendo esperar a sua vez para também utilizar os
meus serviços. Porém ela dirigiu a atenção para a criança e demonstrando
interesse pela história disse-lhe:
- Seu irmãozinho se chama Zequinha?
- Sim senhora.
- E ele tem dois aninhos?
- Sim senhora! A senhora o conhece?
- Não pessoalmente. Mas me diga, você se chama Lucinha?
...
Notei que um sorriso se formou naquele rostinho infantil.
- Sim senhora! E estou falando com a mamãe no telefone!
- Posso falar com ela, Lucinha?
- Sim senhora.
- Maria Rita é você?
- Sim! Mas quem é?
- Sou eu, a Jurema!
- Jurema? A da confecção?
- Sim querida! Sou eu e ouvi o que a sua filha lhe contou. Posso
ajudá-la se você quiser.
- Por favor, Jurema! Parece que foi Deus que a enviou. Você poderia
medicar o meu menino? Estou saindo do meu serviço e irei para casa!
- É claro querida! É por isso que estou aqui.
- Me perdoe Jurema por não ter ido até a sua cidade natal para visita-la
no hospital. Eu liguei e disseram-me que você estava muito mal e que talvez não
resistisse. Depois disso, liguei e tentei obter mais notícias, mas a moça que
me atendeu negou por não fazer parte de sua família. Mas pelo jeito você
conseguiu escapar, não é mesmo? E pela sua voz parece estar muito bem.
- Estou bem querida! Principalmente agora que pude ajuda-la. Eu devia a
você um favor e Deus permitiu que aqui estivesse, pois a considero como minha
irmã.
- Eu também Jurema tenho por você muito carinho! Logo estarei aí para
abraça-la e colocar o nosso papo em dia, afinal faz dois meses que não a vejo.
- Não estarei aqui, Maria Rita, quando você chegar querida. Tenho que
seguir viagem. Mas não se preocupe vou cuidar do seu filho e de sua filha, e
quando você chegar, ele estará bem!
- Por favor, Jurema vou ficar eternamente grata por esta sua ajuda. Você
sabe da minha situação e como este emprego é importante para que eu possa
sustentar as minhas duas crianças que tanto amo.
- Não me agradeça Maria Rita, mas sim a Deus pois foi ele que permitiu a
minha vinda para ajudá-la.
- Não estou entendendo Jurema!?!?!?
- Isto não é importante no momento querida amiga. Na hora certa você
entenderá. Adeus Maria Rita... E que Deus a abençoe!
...
Tudo resolvido não é mesmo, caro leitor, e sem nada aparentemente que
mereça o meu relato. A não ser pelo fato de que alguns dias atrás, em uma outra
conversação, ouvi algo que me chamou a atenção:
“A TAL JUREMA, HAVIA FALECIDO”.
(...)
Realmente há coisas e fatos que não podemos explicar, ou muitas vezes
não buscamos a explicação. Mas tenho certeza de que em tudo está a mão do mesmo
“Grande Arquiteto” que criou o Universo e todas as coisa que há nele.
Pelo jeito Deus é realmente um verdadeiro e presente Pai.
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Por: Marcos Ângelo Alves
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Revisão ortográfica: Prof.ª Claudete Amaral
de Melo
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